Aleister Crowley

O perfil do Mestre Therion

          Aleister Crowley - TO MEGA THERION          

Edward Alexander Crowley, conhecido como Aleister Crowley, na Rua Clarendon Square, n. 30, em Royal Leamington Spa, no condado de Warwickshire, Inglaterra, entre as 11h00 da noite e meia-noite do dia 12 de Outubro de 1875. Filho de Edward Crowley e  Emily Bertha Bishop. Desde cedo recebeu uma educação cristã, já que seus pais eram membros de uma seita conservadora de uma comunidade cristã fundamentalista, conhecida como Irmãos de Plymouth. Assim, o jovem Crowley tem seu primeiro contato com uma irmandade reservada.

Seu pai era um engenheiro de formação, mas segundo o próprio Aleister Crowley, ele nunca exercera a sua profissão, já que havia herdado uma cervejaria, o que lhe permitiu aposentar-se cedo. Isto rendeu, futuramente, uma boa herança Crowley. Seu pai, que levava uma vida abastarda, dedicava-se a Irmandade de Plymouth, trabalhando como missionário por diversas vezes. Edward Crowley se esforçava para moldar o jovem Edward Alexander a ser um futuro Irmão de Plymouth, fazendo o garoto ler um trecho da Bíblia todos os dias.

O fanatismo religioso impactava a formação do profeta da Lei de Thelema. Uma das primeiras demonstrações deste impacto acontece quando aos 29 de Fevereiro de 1880, sua mãe dá a luz a Grace Mary Elizabeth, que vem a falecer após cinco horas de seu nascimento. Em sua autobiografia "As Confissões de Aleister Crowley", ele relata como foi estar deparado, tão jovem, com o corpo desfalecido da pequenina irmã:

O incidente criou nele uma curiosa impressão. Ele não entendia o porque de estar tão inutilmente perturbado. Ele não poderia fazer nada; a menina estava morta; aquilo não era de sua conta. Essa atitude persistiu nele com o passar da vida. Nunca mais compareceu a outro velório, salvo o do próprio pai, que ele não se importou em comparecer porque sentiu que o pai era, em verdade, o centro de seu interesse.
          Aleister Crowley aos 14 anos em 1889.          
 Uma curiosidade a respeito desta citação e notar que Crowley falava de si na terceira pessoa. E assim, o pequeno Aleister desenvolvia uma reflexão a respeito de vida, morte e espiritualidade. Mais tarde, aos 5 de Março de 1887, quando Crowley tinha apenas onze anos, seu pai morreu de câncer de língua. O impacto deste ocorrido foi descrito pelo profeta como decisivo para sua vida. Ressaltando a curiosidade anterior, é neste ponto de suas "Confissões", que Crowley passa a escrever de si em primeira pessoa.


Edward Alexander Crowley, herdando a riqueza de seu falecido pai, porém, com idade baixa, sofre influencia da seita que sua família figura, e é matriculado numa escola privada da Irmandade de Plymouth. Logo o jovem é expulso da escola por "tentar corromper outro aluno", como escreveu o biografo John Symonds, em seu livro: "The Beast 666: The Life of Aleister Crowley", de 1952. Crowley, ainda jovem, chegou a ser enviado para a Escola de Tonbridge e o Colégio de Malvern. Em seus relatos confessou que desprezava todos esses lugares. Chegando a adolescência, o futuro mago começava a desprezar o cristianismo, tornando-se cético e atentando cada vez mais contra a moral cristã que lhe foi imposta desde cedo.

No Trinity College, Cambridge, em 1895, Crowley ingressa para estudar Filosofia. Porém, com a permissão de seu tutor, ele troca de curso, passando a estudar Literatura Inglesa. Neste período de sua vida ele passa a desenvolver uma visão crítica severa do cristianismo. Em "As Confissões de Aleister Crowley" ele relata: 

A Igreja Anglicana […] me parecia com uma estreita tirania, tão detestável quanto a dos Irmãos de Plymouth; ainda menos lógica e mais hipócrita… Quando descobri que comparecer à capela era obrigatório, imediatamente recusei. O vice-reitor me repreendeu por não estar comparecendo à capela, e não estava mesmo, pois tinha que acordar cedo para isso. Dei a desculpa de que tinha sido criado entre os Irmãos de Plymouth. O reitor pediu para que eu viesse vê-lo de vez em quando para contar mais do assunto, ao que tive a surpreendente ousadia de escrever-lhe: 'A semente plantada pelo meu pai, regada com as lágrimas de minha mãe, arraigaram-se demais para serem arrancadas, até mesmo por alguém de sua eloquência e erudição'.

 Também neste período de sua vida, Crowley toma uma decisiva atitude que mudaria completamente sua persona, ele decide abandonar seu verdadeiro nome, Edward Alexander Crowley, e parraria a assinar como Aleister Crowley. Sobre isso, escreve em suas confissões:

Por muitos aborreci-me ao ser chamado de Alick, parte devido ao ruído e estética desagradáveis da palavra, parte devido a ser esse o nome pelo qual minha mãe me chamava. Edward não parecia combinar comigo, muito menos os diminutivos Ted ou Ned. Alexander era muito longo e Sandy dava ideia de uma loira sardenta. Eu tinha lido num livro por aí que o nome mais propenso a se tornar famoso era composto de um dátilo seguido por um espondeu, como no fim de um hexâmetro: por exemplo Jeremy Taylor. Aleister Crowley preenchia essas condições e Aleister é a forma gaélica de Alexander. Era o nome que satisfaria meu ideal romântico. A ortografia atroz A-L-E-I-S-T-E-R foi sugerido como a correta pelo primo Gregor, e ele que o diga! De qualquer modo, A-L-A-I-S-D-A-I-R cria um dátilo muito ruim. Por essas razões eu decidi ficar com meu pseudônimo atual — não posso dizer com certeza se facilitei ou não a chegada da fama com isso. Sem dúvida, deveria ter feito isso qualquer um que tivesse o nome que eu escolhesse.
          Aleister Crowley escalando em 1894.          
Um dos hobbies a qual Crowley desprendia seu tempo livre era o alpinismo. De fato, em todo o perído como universitário, aproveitava seu tempo livre para escaladas.  Nos feriados viajava aos Alpes com outros alpinistas que o descreviam como "um alpinista promissor, porém um tanto quanto errático". Foi, inclusive, através de escaladas que Crowley fez alguns contatos importantes para o progresso de sua jornada.

Outro passatempo seu era a poesia. Enquanto jovem, com seus 10 anos, já escrevia seus primeiros poemas. Em 1898 publicara independentemente cem cópias de um de seus poemas, Aceldama, mas que não vendeu muito. Analisando sua história é possível notar que uma de suas aspirações era tornar-se um poeta reconhecido. Principalmente quando analisamos suas publicações futuras, já tratando sobre Thelema, onde aproveitava para publicar em conjunto alguns de seus poemas. No mesmo ano em que publicara Aceldama, Aleister Crowley publicava uma série de outros poemas, um deles era uma obra erótica intitulada White Stains (literalmente, Alvas Máculas). Este foi o poema de mais destaque desta série, tendo sido publicado no exterior, para evitar escândalos frente as autoridades britânicas. Talvez pelo seu polêmico teor tenha se destacado dos demais.

Um outro passatempo que se destaca em sua vida é o xadrez. Biógrafos, historiadores e pesquisadores apontam Crowley como um excelente enxadrizta. Na universidade havia se tornado sócio do clube de xadrez. Ele alegava ter vencido o presidente do clube no primeiro ano, e relatou que praticava duas horas por dia para se tornar um campeão. Em suas confissões escreveu: "Minha ambição mundana mais séria era a de me tornar campeão mundial de xadrez."

Crowley, que pelos seus relatos aparenta ter um ego inflado quanto a sua "superioridade", também alegava ter derrotado os campeões enxadristas Joseph Henry Blackburne e Henry Bird. Em 1897, visitou um torneio em Berlim e relatou em suas confissões: "vi os mestres — o primeiro, um decrépito ranzinza e cegueta; o outro, talvez um jeito respeitoso de descrevê-lo seria mal-apessoado; o terceiro, uma reles sátira de gente, e desse nível para baixo quanto ao resto. Esse era o tipo de pessoa cujo lugar eu queria ter. "Dali, mas com a graça de Deus, se vai Aleister Crowley", exclamei para mim com desgosto, e daquele dia em diante fiz um voto de nunca mais jogar outra partida séria de xadrez."

          Aleister Crowley em 1896.           
A figura controvérsia de Aleister Crowley causou muito impacto na Inglaterra Vitoriana. Desde seus poemas eróticos e a afronta ao pudor cristão, sua sexualidade no período universitário já poderia ser causa de escandalos ao pudor inglês da época. Ele alegava manter uma vida sexual bem ativa e movimentada, quase toda movida à base de prostitutas e moças que conhecia em bares e tabacarias em suas farras noturnas. Crowley relata, em suas Confissões, que conheceu em 1897 um homem com quem teve um breve relacionamento afetivo e sexual, Herbert Charles Pollitt. Logo este relacionamento se desfaz. Para Crowley, isso se deu pela falta de interesse de Pollitt em esoterismo, o mais novo interesse intelectual que desenvolvia. Ele relata em suas Confissões: "[e]u disse pra ele, na maior franqueza, que eu tinha devotado minha vida à religião e por isso ele não se encaixaria. Hoje vejo como fui babaca com ele, como terrivelmente errado e fraco é rejeitar uma pessoa por causa de uma parte da personalidade dela.".

Foi em dezembro de 1896 que Aleister Crowley teve sua primeira experiência religiosa marcante,  da qual mais tarde afirmou: "essa filosofia nasceu em mim." Com isso Crowley começou a se interessar por ocultismo e misticismo, e logo iniciaria seus estudos da área. e, no ano seguinte, começou a ler opúsculos de alquimistas, obras de místicos e tratados de magia. A leitura do livro de Carl von Eckrtshausen, "A Nuvem sobre o Santuário", despertou–lhe nele uma curiosidade a respeito de uma sociedade secreta de grandes iniciados. Crowley definiu a si o objetivo de conquistar seu lugar entre tais homens.  Em outubro de 1896, Crowley é acometido por uma severa doença. Isso lhe deixou reflexivo quanto a morte e a vida e a "futilidade de toda atividade humana". Esse ocorrido foi estopim para que ele tomasse como futilidade a carreira diplomática que tanto tinha considerado antes. Assim, ele devotar-se de corpo e alma ao Oculto. No ano seguinte, em 1897 Crowley larga seus estudos em Cambridge  sem conquistar diploma algum.

        Aleister Crowley aos 21 anos, 1896.        
Com interesse em alquimia e fascinado pela ideia de uma sociedade secreta, em 1897 o jovem Crowley conhece, em um de seus passeios por Zermatt, Suíça, um químico chamado Julian L. Baker. Em conversa com o novo amigo descobrem um interesse em comum, a alquimia. Crowley vai além e menciona os temas pelos quais havia começado a se interessar, ocultismo e misticismo. Ao retornarem à Inglaterra, Baker apresentou Crowley a seu cunhado, George Cecil Jones, que também se interessava pelos mesmos assuntos que Crowley. Jones era membro de uma irmandade ocultista conhecida como Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn), clássica ordem europeia que reunia e sintetizava ensinamentos diversos, como Cabala, Rosacrucianismo e Yoga.

Aleister Crowley passa a travar contato de interesse com Jones e outros membros da ordem. Pouco tempo depois, é iniciado na outer order ("ordem exterior") da Aurora Dourada, no dia 18 de novembro de 1898, pelo grão-mestre da irmandade, e um de seus fundadores, o maçom Samuel Liddell MacGregor Mathers. O ritual de sua iniciação ocorreu no Mark Mason's Hall de Londres. O mais novo membro da Golden Dawn então adotou como seu nome mágico Frater Perdurabo, do latim, irmão que perdurará (até o sim). Este é o primeiro envolvimento com uma ordem ocultista e com a prática de magia cerimonial daquele que, anos mais tarde, viria a ser A Grande Besta 666.

             Aleister Crowley paramentado com seu             
           robe ritualístico da Aurora Dourada, 1899. 
          
Fascinado pelas práticas da Golden Dawn, e com o intuito de fazer experimentos de magia e ocultismo, Crowley mudou-se de um aposento elegante onde estava hospedado no Cecil Hotel para o próprio apartamento de luxo em Chancery Lane. Lá ele dedicaria dois cômodos para suas práticas. Um quarto para magia branca e outro para magia negra. Pouco depois, Crowley chama um amigo da Golden Dawn para morar com ele, Allan Bennett. Lá, ambos desenvolvem seus estudos e práticas magísticas. Bennett acaba se tornando mentor de Crowley, instruindo-o cada vez mais sobre magia cerimonial e enteógenos.

Em 1899, Aleister Crowley compra a famosa Mansão Boleskine, as margens do Lago Ness, em em Inverness, Escócia. Fascinado pela cultura escocesa, e auto intitulando-se "Lorde Boleskine", Crowley passa a usar trajes típicos escoceses, inclusive em suas idas a Londres. No ano de 1900 Allan Bennett viaja ao Ceilão (Sri Lanka), onde pretende estudar budismo. Crowley, sem seu tutor, se confina na Boleskine House com intento de usa–lá para obter o contato e conversação com seu Sagrado Anjo Guardião, através do Ritual de Abramelin. Se aproximando do líder da Aurora Dourada, Frater  Perdurabo em pouco tempo cresceu na ordem. Nesta época a Golden Dawn passava.  por alguns problemas. O então chefe da Aurora Dourada, MacGregor Mathers, era deposto por alguns membros descontentes com o regime autocrático dele. Crowley se aproveita deste ocorrido e busca Mathers para ser iniciado na Segunda Ordem da Golden Dawn. Para isso ele desembolsa uma grande quantidade de dinheiro, comprando sua iniciação. Assim, Crowley se torna um aliado fiel de Mathers. Ele com a então amante e parceira ritualística (mulher escarlate), Elaine Simpson, que também era membro da Golden Dawn, tentaram ajudar a interromper a rebelião, e sem sucesso tentaram tomar o espaço de um lugar conhecido como Cúpula de Rosenkreutz dos rebeldes. 
          Aleister Crowley aos 26 anos, 1901.         
As desavenças não paravam por ai. Crowley criara muitas inimizades dentro da Ordem, principalmente com os ditos rebeldes que afastaram McGregor Mathers de seu cargo. Entre suas inimizades estava 
William Butler Yeats. O poeta, dramaturgo, político e místico irlandês chegou a desdenhar dos poemas de Crowley, que tinha aspirações de ser um poeta reconhecido. Outro que despertou a antipatia de Crowley foi Arthur Edward Waite. Historiador maçônico e ocultista, A. E. Waite foi um dos autores do Tatrot de Rider-Waite-Smith, juntamente com o editor William Rider e a ilustradora Pamela Colman Smith (que também era membro da Aurora Dourada). Waite teria irritado também os demais confrades da Aurora Dourada por ser um crítico notoriamente pedante do esoterismo. Para Crowley, A. E. Waite era um chato pretensioso, graças às demasiadas críticas que fazia aos escritos e editoriais dos colegas ocultistas. Alimentando essa rivalidade, Aleister Crowley não poupou Waite de criticas, alfinetas e gozações em suas publicações. Esta rivalidade se estendeu até a morte de Waite em 1942. No periódico O Equinócio, do qual Crowley era colunista, recorria até a trocadilhos quando o criticava, como no caso de Wisdom While You Waite ("Sabedoria enquanto se espera" ou "Sabedoria enquanto Waite", graças ao trocadilho com wait), e até na nota de falecimento, Dead Waite ("Peso Morto", trocadilho com weighty). Crowley rompe com Mathers, se desliga da Golden Dawn e parte em uma viagem para os Estados Unidos (onde é dito que tenha feito uma amante).
Em 1900 entra no México pelos Estados Unidos . Lá, fazendo valer um de seus hobbies, junto com o amigo alpinista Oscar Eckenstein resolveram escalar diversas montes, incluindo o Ixtaccihuatl, o Popocatepetl e até o Colima, do qual tiveram que abandonar de última hora graças a uma erupção. Em conversas com o amigo Crowley descobriu que Eckenstein tinha tendências ao misticismo. Foi justamente Eckenstein  que sugeriu ao mago a prática de raja ioga como forma de melhorar o controle de sua própria mente. Crowley, em seus diários revela que nesta época havia descoberto o significado da palavra mágica Abrahadabra. 
          Aleister Crowley durante suas viagens, em 1902.          
Crowley partiu do México (país pelo qual nutriu admiração), e 
visitou São Francisco, Havaí, Japão, Hong Kong e finalmente Ceilão, onde reencontrou seu amigo e antigo mentor Allan Bennett. Fascinado pelas práticas apresentadas por Eckenstein, e agora com a ajuda de Bennett, Crowley se aprofundava na prática do ioga. Seu amigo o ensina e o treina nas práticas de Yoga que aprendeu ao decorrer dos anos no Ceilão. Crowley mais tarde afirmando ter atingido o estado mental de dhyana. Bennett decide tornar-se monge budista da tradição Theravada, viajando até à Birmânia, enquanto Crowley viaja, em 1902, à Índia estudar as muitas ramificações do hinduísmo. Neste período, Eckenstein se junta a Crowley e alguns outros alpinistas: Guy Knowles, H. Pfannl, V. Wesseley, e Dr Jules Jacot-Guillarmod (provavelmente as pessoas na foto ao lado). Um dos feitos deste grupo de Eckenstein-Crowley foi tentar escalar o monte K2, o que até então não tinha sido feito por nenhum europeu. Na tentativa de escalada Nessa jornada, Crowley se infectou com influenza, malária e cegueira de neve, junto com outros membros. Atingiram seis mil metros de altura antes de decidirem retornar. Durante esse período de viagens, e brigas internas na Aurora Dourada, embora tivesse relatado em seus diários que havia atingido consecuções espirituais e a realização de diversos feitos mágickos, Crowley passa por um período de ceticismo e apatia em relação à Magia. Segundo seus registros ele se perguntava para que serviria tudo isto, vendo com indiferença todas as práticas de ocultismo. 
Em 1903 ele retorna para a Europa, passando em Paris, onde visita McGregor Mathers. Apesar de terem nutrido uma grande amizade no passado, os dois logo se estranharam; Crowley afirmava que Mathers estava roubando dele enquanto ele esteve fora (Crowley mais tarde lhe roubou tudo de volta).
               Crowley e sua noiva Kelly, 1904.               
O 
biógrafo de Crowley, John Symonds, notou que ambos se consideravam os maiores esoteristas vivos e se recusavam a sujeitar-se ao outro, o que teria feito o atrito entre ambos se reforçar. Ainda em 1903 Crowley retornou a seu lar em Boleskine, na Escócia, onde é apresentado à Rose Edith Kelly, irmã de seu amigo, o pintor real Sir Gerard Kelly. Ele se casa com Rose por conveniência, mas logo ele começa a se apaixonar pela moça e começam a namorar. 
Após o casamento os noivos viajaram para Cairo, Egito, em lua de mel. Lá Aleister Crowley passa por um dos maiores acontecimentos de sua vida, a recepção do Liber Al Vel Legis, o Livro da Lei. Para surpresa de Crowley, Rose Kelly revelou–se uma clarividente. Ele que por vezes tentou contato com o seu Sagrado Anjo Guardião, julgou, através da mediação de sua esposa, ter tido sucesso. 
Porém, foi só quando tentava divertir sua noiva no Cairo que o futuro profeta tem sua jornada alterada. De acordo com seus registros, enquanto ele tentava despretensiosamente (e sem sucesso), através do Ritual do Inascido, invocar silfos para surpreender Rose Kelly, ela acaba entrando em transe e anunciando: “Eles estão esperando por você!”. É anunciado que o deus egípcio Hórus seria o portador da mensagem transmitida por sua esposa, e estaria aguardando que Crowley o invocasse, como se um canal tivesse sido aberto através do ritual realizado sem sucesso. Crowley a princípio é cético quanto a veracidade desta mensagem, e então começa a aplicar uma diversidade de testes à Kelly. Ele aplica a sua esposa diversas perguntas cujo as respostas Rose não poderia ter conhecimento prévio. Incrivelmente sua esposa responde a todas as questões com exatidão e certeza. 
     Crowley e sua noiva no museu Boulaq. Pintura.     
Convencido, porém ainda desconfiado, Crowley leva Kelly para o museu Boulaq, no Cairo, onde realiza um ultimo teste. 
Após passarem por várias imagens de Hórus, ela apontou para uma estela (placa de pedra funerária egípcia, retangular e com o topo curvo, contendo imagens e inscrições) que não podia ser muito bem vista do ponto onde se encontravam. Quando examinada, a estela (hoje conhecida como Estela da Revelação) apresentava uma imagem de Hórus e, para espanto de Crowley, estava catalogada com o número 666. Crowley adotara o 666 como seu número pessoal como rebelião contra a religião de sua família há muito tempo atrás.
Após estar convencido que o deus egípicio usara sua esposa como canal para se comunicar, Crowley passa a seguir a risca as instruções dadas por Rose por Hórus, que lhe prescreve um ritual a ser realizado para sua invocação. A execução destas instruções se dão nos dias 8, 9 e 10 de abril de 1904, onde uma entidade se manifestou para Crowley lhe ditando, do meio-dia as 13 horas de cada um destes três dias, o que viria a ser o Liber Al Vel Legis, o Livro da Lei de Thelema. Ele escreveu num simples pedaço de papel tudo o que lhe era ditado, totalizando 65 páginas dividias em três capítulos sendo 22 páginas para o primeiro, 22 páginas no segundo, e 21 páginas do terceiro. 
Crowley recebendo o Livro da Lei de Aiwass. Pintura.
Os escritos ditados por Aiwass, que mais tarde Crowley reconheceu como sendo seu Sagrado Anjo Guardião, traziam um chamado a uma nova lei que governaria o Novo 
Æon (Era de Áquario). Os relatos de Liber Al, são narrados: no primeiro capítulo por Nuit (Nut), a deusa egípcia do Céu Estrelado; no segundo capítulo por Hadit, o "complemento de Nu", sua noiva; e por fim, o terceiro capítulo, por Ra-Hoor-Khuit, identificado como a Criança Coroada e Conquistadora, e como um deus de Guerra e Vingança. Este terceiro capítulo é o que mais causa impacto negativo para aquele que o lê sem experiência ou de forma superficial. Porém, no decorrer deste capítulo a narrativa se torna mais amena e um equilíbrio se estabelece. Crowley une os três da seguinte forma: "Temos Nut, Espaço, Hadit, o ponto de vista; estas experiências se unem, e então produz-se Heru-Ra-Ha, que combina as idéias de Ra-Hoor-Khuit e Hoor-paar-Kraat.". De início o conteúdo do Livro da Lei chocou Crowley, mas logo ele o esqueceria. Com o início da Primeira Guerra Mundial, ele acaba por esquecer este escrito, recebido sem nenhuma grande aspiração, e de conteúdo confuso e enigmático. 
      Crowley e Rose no Museu Boulaq. Pintura      
Crowley ainda não sabia, mas esta seria sua obra máxima, dando início a um movimento que vem ganhando cada vez mais adeptos nos dias atuais, Thelema. O destaque destes escritos é a frase: "Faz o que tu queres, deverá ser o todo da Lei.", seguido do complemento "Amor é Lei, Amor sob Vontade.". Essa vontade seria a Verdadeira Vontade, ou Thelema (do koiné θέλημα, "vontade, arbítrio"), em que o indivíduo possui absoluto discernimento das forças que movimenta e o movimentam. Essa liberdade por muitos foi considerada pretexto para libertinagem. 
Porém, os thelêmitas aplicados no estudo dos escritos de Crowley entendem liberdade como a regra desta Nova Era, onde não há mais uma imposição moral do que vem a ser certo ou errado, sendo o ser humano livre para realizar suas escolhas. É uma visão que atualmente pode parecer tola, já que a sociedade já é desprendida do que outrora foi comumente considerado moral. Mas vale ressaltar que estes textos foram escritos em 1904, quando ainda havia muitas restrições morais, principalmente no que se referia a sexualidade. O próprio Crowley traçou um paralelo sobre libertinagem e liberdade: "O tolo bebe, e se embebeda: o covarde deixa de beber. O homem sábio, valente e livre, bebe, e glorifica ao Deus Altíssimo.". 
     Tábua mortuaria egípcia     
     (Estela da Revelação)     
Página do manuscrito
          original de Liber AL.          
A escrita deste livro tornou Aleister Crowley o profeta do Novo Æon, porém, só após alguns anos ele redescobriria este manuscrito. Ao remexer seus arquivos Crowley esbarra no texto que havia escrito no Cairo e então começa a estuda-lo e finalmente entende que se tratava de um livro sagrado. Com a ajuda de sua esposa, Rose, algumas correções são realizadas no manuscrito original, em trechos onde Crowley deixou em branco por não ter escutado ou não ter entendido o que lhe era dito. 
Após a recepção do Livro da Lei Crowley iniciou uma batalha contra Mathers. O profeta escreveu uma carta a seu antigo mestre e ex-amigo anunciando o Equinócio dos Deuses (o Novo Æon) alegando ter forjado um elo místico com os Mestres Secretos. Em seu estilo pretencioso e cheio de pompas, Crowley assumia pra si a suprema autoridade mágica. Esta carta não alegrou muito Mathers, e assim um entrave entre ambos é iniciado. Neste novo duelo mágico, o profeta sai vitorioso.
O entrave mágico entre ambos durou anos e apenas encerrou-se com a morte de McGregor Mathers em 1918. Crowley alegou que o primeiro ataque mágico partiu do antigo mestre da Golden Dawn, que lhe enviou uma de suas discípulas, uma vampira. Em seus escritos o profeta a descreveu como: "uma mulher jovem, de beleza enfeitiçante", alegando ter se defendido com magia e "transformando-a em uma feia mulher sexagenária, curvada e decrépita". 











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